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Crónicas

Crónicas da Zona Oriental do Porto (ZOP)

Histórias que documentam e amplificam este território


A Viela #2

Texto
Publicado em
Novembro, 2025
Fotografia
Rui Pinheiro
Texto
Filipa Vaz Teixeira

Media

História

É sexta-feira, dia de ritual no número 15 da Travessa de Miraflor. “Ó Rosa, há aí dois lugares?”, pergunta José Carlos, ao que Rosa, depois de mexer numa e noutra cadeira, responde que sim senhora, “há dois à beira do Zé de Matosinhos”. A taberna, naquele dia, estava cheia, como é habitual. Luzes baixas, toalhas de papel nas mesas, umas iscas de bacalhau prontas a sair, o Tal da Lixa servido fresquinho e um arpejo de guitarra portuguesa a dar o mote: silêncio, que se vai cantar o fado.

Há 10 anos que é assim. Todas as sextas-feiras, a Adega Viela organiza sessões de fado vadio e muitos são os que as frequentam desde o primeiro dia. “Estou sempre aqui”, diz Vininha ao balcão, enquanto combina os detalhes da excursão que a levará a Lisboa, ao tributo a Fernando Maurício. José Silva, “nascido e criado em Campanhã” e descascando uns camarões ali ao lado, vangloria-se de ter sido o primeiro a abrir os fados. Já Fernando Oliveira, que naquela mesma adega comemorou os seus 50 anos, numa festa surpresa que o deixou em lágrimas, não tem dúvidas de que quem vem pela primeira vez, fica a gostar: “Isto aqui é uma família”.

Se é uma família, então tem de haver uma matriarca e esse posto é ocupado por Rosa Meireles. “Quando aqui cheguei, há 15 anos, isto era uma adegazinha. Nem duas refeições por dia servia”, diz com despacho, fazendo as contas aos consumos da clientela num pequeno bloco. Hoje, a Adega Viela é conhecida pelo bem que ali se come, sejam umas tripas à moda do Porto, uma cabidela de frango ou umas marmotinhas fritas. É Rosa quem dita o menu, com a ajuda de Fátima e do filho André, e é ela quem alça os brindes para que “nunca falte a pinguinha” neste fado que é a vida.

O fado, esse, sempre esteve consigo. Nascida na Ribeira há 65 anos, salgueirista com as quotas em dia e benfiquista não praticante, Rosa Meireles é filha de mãe peixeira e de pai fadista. Canta desde pequena, gemendo com o corpo e com a voz. Certo dia, o letrista Carlos Bessa escreveu-lhe uma letra: “Sou a Rosa da Ribeira / Meireles, o apelido / Herdeira de um triste fado / Lutando uma vida inteira / Orgulhosa por ter nascido / Neste meu torrão amado”. É com estas palavras que encerra as sextas-feiras na sua Adega Viela, casa onde há sempre espaço para mais um.

“Se tiver de dar de comer a quatro ou cinco, dou. Sempre abri a minha porta”. Só não abre a porta à ruindade, que essa azeda a comida. O seu coração imenso, comunista até morrer, valeu-lhe a Medalha de Grande Mérito de Ouro da cidade, atribuída pela Câmara Municipal do Porto. Mas as condecorações que mais lhe importam são as suas pessoas: “Eu gosto desta gente que não conhece o que é a maldade”.

Amiúde, a família vai crescendo. Naquela tarde, Rita Oliveira, com os seus 22 anos, estreou-se a cantar o fado na Adega Viela. “Senti-me muito bem”, disse, ainda tímida, no final da atuação. Alfredo Sousa, cliente antigo, acenava com a cabeça. José Carlos, apresentador, fadista e dinamizador das sessões, bradava com entusiasmo, “grande Ritinha!”. E Emília Romano, a madrinha de Rita na sua estreia, dedicava-lhe uma canção.

“Terminámos mais uma maravilhosa tarde de fados”, decretou, por fim, José Carlos, já perto das oito da noite. Toca a andar dali para fora, que no dia seguinte Rosa tem de acordar às 7h da manhã. “Eu trabalho a 100%. Só descanso ao domingo”. E mesmo ao domingo, as guitarras continuam a trinar na sua cabeça. No meio de um mundo cão / Mas com a Graça de Deus / Construí minha casinha. Tudo isto é o fado, tudo isto é Adega Viela!


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