História

É dia de jogo e o centro gravitacional da cidade move-se para a zona das Antas. “Hoje joga o Porto” substitui o “bom dia” habitual nos cafés, logo pela manhã. Desconhecidos falam de uma mesa para a outra, os empregados entram na conversa, discutem-se onzes prováveis, com o jornal aberto e a meia de leite ao lado.
As famílias vão-se juntando nas imediações do Estádio do Dragão bem antes da bola rolar, seja para tirar uma fotografia com as mascotes Draco e Vienna, seja para fazer pinturas faciais. Todos querem vestir a rigor, exibindo a camisola da época ou aquela que já vem dos avós e que é amuleto em todas as partidas. Vê-se o número 2 em várias delas. Afinal, Jorge Costa, o eterno capitão, nunca será esquecido.

Há pessoas vindas de todos os pontos cardeais, enchendo o Metro, que em dia de jogo se transforma numa caravana portista. Acorrem ao covil do Dragão para comungar de um ritual que nem a chuva mais agreste demove. Parece encontrar-se na fé inabalável na vitória o antídoto para qualquer intempérie.
Quanto mais perto do apito inicial, mais as carruagens ficam a abarrotar, mas há sempre espaço para mais um adepto. Ouve-se, amiúde, um “segure-se a mim”, para amparar quem precisa. E quando finalmente o sinal sonoro “Estádio do Dragão” soa nas colunas do Metro e as portas se abrem, uma torrente azul-e-branca jorra paragem fora, num passo acelerado até à "cadeira de sonho". Já se sabe que entrar no estádio sem ouvir o hino dá azar, por isso toca a apressar!

Os 90 minutos que se seguem são um rodopio de emoções. O coração vai dos zero aos cem em poucos segundos, os vizinhos discutem se é ou não falta, aplaudem, assobiam, emudecem quando o perigo bate à porta, mas, no momento em que a bola beija a baliza do aniversário, solta-se o grito de fogo: GOOOOOOOOOLO. E na VCI os carros abanam, na Corujeira os pássaros levantam voo.
“Porto Porto Porto, és a nossa Glória, Dá-nos neste dia, Mais uma alegria, Mais uma Vitória!”. A marcha de Maria Amélia Canossa dá o toque para o regresso a casa. Há quem ainda pare no restaurante Portas de São Roque, ali ao lado, para trincar uma bifana e aquecer com um caldo verde ou com umas papas de sarrabulho. Outros, vão diretos para o Metro, entrando com sorriso largo, mesmo quando as carruagens estão apertadinhas. Se alguém se move com mais brusquidão, vem logo o pregão, “calma, somos todos portistas!”.
A cada paragem, despedem-se os que saem dos que continuam o caminho. No aceno final, a certeza que não precisa de ser dita em voz alta: aconteça o que acontecer, “se hoje joga o Porto”, a família azul-e-branca vai estar novamente reunida.