
- Tipo
- Atividade
- Data
- 22 de Março de 2026

Como se assentam caminhos?
O projeto Caminhos a Oriente nasce da vontade do Município do Porto de desenvolver, através do Matadouro—Centro Cultural do Porto, programas culturais e de investigação dedicados ao Vale de Campanhã e à zona oriental da cidade. É um projeto que propõe percorrer este território através da prática de caminhar—entendido como um instrumento de aproximação, leitura e partilha do espaço urbano.
Mais do que simples deslocações ou incursões, os percursos propostos procuram criar momentos de observação, escuta e encontro entre diferentes formas de conhecimento—do local e do quotidiano ao artístico e ao reflexivo—produzindo uma relação mais direta com a paisagem, a memória e as comunidades que a habitam.
Ao atravessar o Vale de Campanhã, o projeto procura dar visibilidade às suas múltiplas camadas históricas, sociais e geográficas, reconhecendo-o como uma estrutura ecológica, cultural e humana fundamental para compreender a evolução recente da cidade do Porto. Ao mesmo tempo, este território encontra-se hoje num momento de transformação.
Antigos espaços produtivos e infraestruturas convivem com novos projetos urbanos, tornando particularmente relevante a construção de um conhecimento partilhado sobre as suas características, potencialidades e fragilidades. Caminhar permite assim tornar visível o que muitas vezes permanece oculto, interpelar e interpretar a cidade pela vivência direta e construir uma relação profunda entre corpo, memória e paisagem.
A partir de março, Caminhos a Oriente inicia a sua primeira fase pública através de um programa exploratório de percursos semanais, abertos à participação de habitantes, investigadores, artistas e visitantes. Cada percurso será orientado por convidados de diferentes áreas, que propõem modos específicos de nos relacionarmos com o território. A proposta parte da ideia de que um caminho se constrói gradualmente, como um assentamento coletivo ao longo do tempo: uma marca produzida por muitos pés que, ao calcarem o mesmo chão, tornam legível a paisagem.
Ao longo do ano realizar-se-ão 31 percursos, organizados em torno de três eixos de trabalho—Povoamento, Criação e Identidade. Cada eixo, orientado por um curador convidado, propõe abordagens distintas ao território e assume uma natureza exploratória e aberta. Este inquérito permite que os percursos dialoguem entre si e que o próprio programa evolua ao longo do seu desenvolvimento, medindo e (re)sintonizando, a cada passo, a sua disponibilidade e o seu compromisso com este território.
— João Covita, coordenador do projeto
Programa
O primeiro programa fora de portas do Matadouro—Centro Cultural do Porto toma a forma de caminhadas participadas na Zona Oriental do Porto. Com um programa para cujo desenho foram convidados três curadores, Caminhos a Oriente pretende dar a conhecer um vale historicamente fragmentado e pouco conhecido da cidade. Este vale, delimitado a ocidente pela Via de Cintura Interna, a sul pelo Rio Douro, e a oriente pelos limites da cidade do Porto, possui um património de facetas diversas: do histórico ao industrial, do paisagístico ao social. Em cada caminhada, os seus participantes serão convocados a incorporar a própria atividade, contribuindo com a sua experiência de um caminho feito coletivamente.
A Zona Oriental do Porto
Marcada por infraestruturas ferroviárias e rodoviárias, antigas zonas industriais, bairros populares e áreas verdes ainda presentes, esta parte da cidade constitui um território onde se sobrepõem diferentes tempos e formas de ocupação da paisagem. Caminhos a Oriente propõe olhar para além de uma condição de periferia. Ao longo da história urbana, lugares semelhantes—situados nas margens interiores dos rios e dotados de vantagens geográficas e logísticas—foram frequentemente espaços de instalação produtiva, agrícola e industrial. Hoje, muitos destes territórios encontram-se também num momento de transição: simultaneamente depositários de memórias materiais e sociais da cidade produtiva e espaços onde novas dinâmicas urbanas poderão redefinir o seu papel no futuro da cidade.




Do álbum reparações na conduta adutora e muro de suporte na Rua do Freixo, 1936. © CMP/ Arquivo Histórico Municipal do Porto

Festa de Nossa Senhora de Campanhã, 1996. Aspeto da festa no adro da igreja Paroquial de Campanhã. © Arquivo Hélder Pacheco/CMP/ Arquivo Histórico Municipal do Porto

Aspeto da construção do Bairro de habitações populares de Rebordões, 1941 (Bairro Operário da Triana/ Ranha) © CMP/ Arquivo Histórico Municipal do Porto









