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Caminhos a Oriente

Caminhadas participadas na Zona Oriental do Porto

Detalhes do Evento

Tipo
Atividade
Entrada
Gratuita

Como se assentam caminhos?

O projeto Caminhos a Oriente nasce da vontade do Município do Porto de desenvolver, através do Matadouro—Centro Cultural do Porto, programas culturais e de investigação dedicados ao Vale de Campanhã e à zona oriental da cidade. É um projeto que propõe percorrer este território através da prática de caminhar—entendido como um instrumento de aproximação, leitura e partilha do espaço urbano.

Mais do que simples deslocações ou incursões, os percursos propostos procuram criar momentos de observação, escuta e encontro entre diferentes formas de conhecimento—do local e do quotidiano ao artístico e ao reflexivo—produzindo uma relação mais direta com a paisagem, a memória e as comunidades que a habitam.

Ao atravessar o Vale de Campanhã, o projeto procura dar visibilidade às suas múltiplas camadas históricas, sociais e geográficas, reconhecendo-o como uma estrutura ecológica, cultural e humana fundamental para compreender a evolução recente da cidade do Porto. Ao mesmo tempo, este território encontra-se hoje num momento de transformação.

Antigos espaços produtivos e infraestruturas convivem com novos projetos urbanos, tornando particularmente relevante a construção de um conhecimento partilhado sobre as suas características, potencialidades e fragilidades. Caminhar permite assim tornar visível o que muitas vezes permanece oculto, interpelar e interpretar a cidade pela vivência direta e construir uma relação profunda entre corpo, memória e paisagem.

A partir de março, Caminhos a Oriente inicia a sua primeira fase pública através de um programa exploratório de percursos semanais, abertos à participação de habitantes, investigadores, artistas e visitantes. Cada percurso será orientado por convidados de diferentes áreas, que propõem modos específicos de nos relacionarmos com o território. A proposta parte da ideia de que um caminho se constrói gradualmente, como um assentamento coletivo ao longo do tempo: uma marca produzida por muitos pés que, ao calcarem o mesmo chão, tornam legível a paisagem.

Ao longo do ano realizar-se-ão 31 percursos, organizados em torno de três eixos de trabalho—Povoamento, Criação e Identidade. Cada eixo, orientado por um curador convidado, propõe abordagens distintas ao território e assume uma natureza exploratória e aberta. Este inquérito permite que os percursos dialoguem entre si e que o próprio programa evolua ao longo do seu desenvolvimento, medindo e (re)sintonizando, a cada passo, a sua disponibilidade e o seu compromisso com este território.

— João Covita, coordenador do projeto

Eixos Programáticos

Povoamento — Territórios Transformados

O Vale de Campanhã é uma zona de transição entre a cidade consolidada e a metrópole dispersa, um mosaico de realidades que se somam na paisagem criando um território singular. A diversidade e a multipolaridade que resulta de um processo de transformação irregular no tempo e no espaço expõem-se, nos dias de hoje, como uma suburbanidade imperfeita, onde as construções se multiplicam, os eixos rodoviários e ferroviários crescem, mas também no retrato das memórias do passado industrial e agrícola—hoje apenas ruínas e trilhos que continuavam caminhos e vielas por entre as encostas do rio Douro e dos vales dos rios Tinto e Torto.

A consumação deste eixo programático assenta em dez percursos que propõem novas zonas de abordagem das dinâmicas de transformação dos “subterritórios” que o compõem: das aldeias, da água, da indústria, da natureza, das acessibilidades, das comunidades, do trabalho, do património, da ruralidade e das sociabilidades. São zonas em plena transformação que se pretende percorrer tematicamente, mas sempre interligadas—pelos seus cruzamentos espaciais e de conteúdos—contribuindo para um conhecimento sustentado, uma visão integral, proativa e prospetiva de um território transformado.

A incorporação dos participantes nestes percursos tem como objetivo ser inclusiva e exploratória utilizando mecanismos como a paragem/observação/escuta direta e a experienciação dinâmica entre o espaço e o corpo no processo de caminhada.

Curadoria por Mário Mesquita.

Criação — Territórios Imaginados

O eixo Criação propõe caminhar para oriente como gesto criativo e dispositivo de revelação. No imenso Vale de Campanhã, uma verdadeira quimera atravessada por campos, vias-férreas e vias rodoviárias—encontramos bairros sociais, associações recreativas e antigos edifícios fabris, onde memória industrial e transformação convivem. Cada caminho será um encontro orientado pela prática de um convidado da área da criação artística e do pensamento expandido.

O ponto de partida é o próprio processo do caminho: um percurso que convoca a participação e engajamento do grupo, a observação atenta, e a integração do entorno e o seu questionamento. Caminhar, neste sentido, é também experimentar o que significa “sair do seu lugar”—deslocar o corpo e as certezas, abrir espaço à descoberta. Um corpo em marcha coloca-se no território, e coloca-se como território.

Na caminhada solitária ou coletiva, compõem-se coreografias sensíveis onde fala, escuta, olhar, olfato, tato e paladar se cruzam com a deriva proposta pelo lugar. Este é um território habitado por lastros de artistas e pensadores portuenses de outros séculos, e hoje por coletivos artísticos e múltiplas expressões culturais e sociais.

Ao reconhecer o potencial humano a partir da cultura e da criação, transforma-se a forma como o território é vivido e projetado. Este eixo convida a (re)parar—em andamento e em conjunto—ativando a memória, a presença e o futuro.

Curadoria por Ana Rocha.

Identidade — Territórios Vividos

Este eixo propõe uma abordagem relacional da identidade dos lugares, entendendo-os, para além da sua materialidade física, como feixes de relações sociais historicamente constituídas. As atividades económicas, as formas de habitar e as redes de sociabilidade inscrevem-se em configurações de poder que moldam o território, tanto material como simbolicamente.

Ao inscreverem-se no espaço social, os agentes produzem e apropriam o espaço físico de forma homóloga às posições que ocupam no espaço social. Assim, as desigualdades de capitais traduzem-se em divisões espaciais, fazendo da cidade uma expressão material de hierarquias sociais e simbólicas.

O percurso pedonal permite apreender continuidades e ruturas da malha urbana, registos de ciclos de investimento e abandono, tipologias habitacionais associadas a políticas públicas e momentos distintos de produção do espaço, bem como marcas 
de precarização e requalificação.

Aplicada ao Porto Oriental, esta perspetiva revela, em dez percursos sociológicos, um território marcado pela (des)industrialização, por grandes infraestruturas de transporte, por bairros operários e por sucessivas políticas de habitação e realojamento. 

Sobrepõem-se aqui tempos sociais distintos—da fábrica à retração produtiva e à requalificação urbana. Conhecer a sua identidade implica compreender as modalidades históricas de produção do território, as dinâmicas de recomposição social e urbana, e as vivências quotidianas que estas potenciam—e potenciaram—assim como as tensões em que se inscrevem.

Curadoria por Virgílio Borges Pereira.

Informação Adicional

Programa
O primeiro programa fora de portas do Matadouro—Centro Cultural do Porto toma a forma de caminhadas participadas na Zona Oriental do Porto. Com um programa para cujo desenho foram convidados três curadores, Caminhos a Oriente pretende dar a conhecer um vale historicamente fragmentado e pouco conhecido da cidade. Este vale, delimitado a ocidente pela Via de Cintura Interna, a sul pelo Rio Douro, e a oriente pelos limites da cidade do Porto, possui um património de facetas diversas: do histórico ao industrial, do paisagístico ao social. Em cada caminhada, os seus participantes serão convocados a incorporar a própria atividade, contribuindo com a sua experiência de um caminho feito coletivamente.

A Zona Oriental do Porto
Marcada por infraestruturas ferroviárias e rodoviárias, antigas zonas industriais, bairros populares e áreas verdes ainda presentes, esta parte da cidade constitui um território onde se sobrepõem diferentes tempos e formas de ocupação da paisagem. Caminhos a Oriente propõe olhar para além de uma condição de periferia. Ao longo da história urbana, lugares semelhantes—situados nas margens interiores dos rios e dotados de vantagens geográficas e logísticas—foram frequentemente espaços de instalação produtiva, agrícola e industrial. Hoje, muitos destes territórios encontram-se também num momento de transição: simultaneamente depositários de memórias materiais e sociais da cidade produtiva e espaços onde novas dinâmicas urbanas poderão redefinir o seu papel no futuro da cidade.

Intervenientes

Mário Mesquita

Mário Mesquita (Porto, 1971), arquiteto, investigador e artista, é doutorado em Arquitectura com a tese “Das redes da invisibilidade na equação contemporânea do território”, e mestre em Planeamento e Projeto do Ambiente Urbano com a dissertação “Formação e consolidação do tecido urbano na zona das Antas - Porto 1880-1950”. É professor na FAUP, lecionando também na FBAUP e na FPCEUP. É investigador integrado do i2ADS, coordenando o projeto “Territórios críticos do Desenho”, colaborador no CITCEM, investigador da R3IAP, foi consultor para o Património da Águas e Energia do Porto, e é vice-presidente do Conselho Pedagógico da FAUP. É especialista sobre o Porto, destacando-se os seus livros mais recentes “Porto: Territórios da Invisibilidade” e “Porto: A Cidade das Cidades”.

Ana Rocha

Ana Rocha (Porto, 1982), coreógrafa, curadora e performer, faz mediação na área da Cultura & das Artes há 23 anos, criando uma linguagem de pesquisa e ação artística, e sociopolítica engajada no desenvolvimento potencial do processo e seu contexto. Ana Rocha opera em campos de multiplicidade e diversidade cultural correlacionando pontos de reflexão e transição, a partir do acompanhamento e consultoria em instituições, organizações sem fins lucrativos, coletivos artísticos e criadores nacionais e internacionais. Formada em Artes Visuais e História da Arte, é doutoranda em Ecologia Humana na Universidade Nova de Lisboa.

Virgílio Borges Pereira

Virgílio Borges Pereira (Porto, 1970) é licenciado em Sociologia, mestre em Sociologia com a dissertação “Poder Local, Desenvolvimento e Mudança Social”, doutor e agregado em Sociologia pela FLUP. Tem vindo a especializar-se na sociologia das classes sociais e das práticas simbólico-ideológicas, dedicando uma atenção especial ao legado sociológico da obra de Pierre Bourdieu. Tem privilegiado, tomando por referência as realidades da cidade do Porto, das regiões do Vale do Ave e do Vale do Sousa, a construção de espaços sociais, de espaços de estilos de vida e de tomada de posição e a análise das respetivas relações com o espaço físico.

Programa Associado

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